"- É, morena. A gente cansa. - ele falou. - Cansa do amor, da vida, do ser, de tudo. A gente vai deixando-se aos poucos, lamentando-se por não ter chegado na hora exata, ignorando as chances que já se foram, de tão perdidas. A gente sempre erra, morena. A gente sempre perde. Sempre chora. Sempre desaba. Sempre esperneia, braceja, barafusta-se. Sempre qualquer coisa, não é morena? Mas na ponta, a gente enfrenta. A gente luta, braveja, faz festa. A gente se recupera, levanta, segue em frente. A gente cansa demais, morena, porque a gente anda demais pela vida, pelo sufoco. A gente corre demais no prejuízo, na corda bamba. A gente é gente. E gente vive na fadiga do viver. Viver por algo que nem sabe por quê. Vive feito forte encravado na terra, que suporta a maresia, a tempestade, o sol que bate. Vive feito pião, rodando até cair. É, morena, a gente cansa de ser gente."